Vocação e Compreensão

domingo, 29 de julho de 2012

Na vocação está presente o dom do amor, amor que conduz à compreensão mesmo das coisas mais difíceis. Aliás, um dos efeitos da vocação é o difícil parecer fácil. Porque naquilo para o quê somos vocacionados, a inteligência trabalha com mais facilidade.

A Igreja insiste no convite a cada fiel para que atenda ao chamamento vocacional, e neste convite podemos perceber a noção de bondade para Santo Tomás de Aquino: “A maior perfeição de cada coisa consiste não em ela ser boa em si mesma, mas em causar a bondade nas outras coisas.” (Santo Tomás de Aquino, A unidade do intelecto, Ed. 70, p. 155). Ora, a vocação é um bem que, para dar-se, necessita da cooperação entre as pessoas. E assim como o bem tende a se espalhar (“o bem é difusivo de si”), as virtudes derivadas da vocação, competência e autoridade, tende a espraiar-se e a funcionar como motivação para as demais pessoas. O que lembra essas outras palavras: “A palavra convence, o exemplo arrasta”. Este “arrasto” se dá na vocação, pois ela é a unidade da memória, inteligência e vontade.

Para que a vocação dê seus melhores frutos, inclinando à retenção do bem e à recusa voluntária do mal – atitude que se mostra como exemplo para terceiros, causando neles a bondade, o desejo de imitar o que é positivo – precisa encontrar referência adequada numa boa doutrina. Pois de que adianta alguém possuir, por exemplo, vocação filosófica e viver criando argumentos contra a moral e os bons costumes, as autoridades legítimas, os deveres para com Deus e o próximo e assim por diante?

Esta boa doutrina funciona como um bom mestre, o qual, nas palavras daquele mesmo santo, “...conduz até à ciência de modo a que quem investiga adquira a ciência por si mesmo, ou seja, começando pelo que se conhece até se chegar ao que se desconhece.” (Idem, p. 155). Prossegue a analogia dizendo que “Assim como no doente se encontra o princípio natural da saúde, ao qual o médico administra os meios auxiliares com vista ao aperfeiçoamento da saúde, assim também no aluno se encontra o princípio natural da ciência, ou seja, o intelecto agente e os primeiros princípios conhecidos por si mesmos; aquele que ensina administra algumas pequenas ajudas deduzindo conclusões dos princípios conhecidos por si mesmos.” (Idem, p. 155).

No que respeita às coisas da vida religiosa, a serviço da qual a vocação de cada um deve ser dócil instrumento, vale recordar que a boa doutrina está contida no Credo, através do qual a Igreja resume tudo em que se há para crer. A meditação de cada um de seus trechos é alimento utilíssimo e saudável. Saudável porque dá os conteúdos precisos nos quais crer; utilíssimo porque instrumentaliza a inteligência a bem julgar o que terceiros possam também propor à nossa fé.

Nos nossos dias, quando grande número de pessoas perdeu a luz da graça e não distingue com facilidade a hierarquia do que é proposto como verdade em relação à Igreja, esta utilidade salta aos olhos quando meditamos nas diversas partes do Credo, em cada uma de suas palavras. Por exemplo, quando meditamos nas palavras “...santa Igreja Católica”. Que enorme auxílio incomparável são tais palavras para julgar as falsas doutrinas. Porque se algo é santo, está isento de erro, engano e absolutamente afastado do pecado e participa da pura bondade de Deus, onde não há qualquer resquício de mal. Porque santo é o que está definitivamente com Deus. Sendo assim, sendo a Igreja santa, dela não pode provir nada que ameace a salvação da alma do crente. Então, entre o que ela afirma e os argumentos contrários, que a coloquem em dúvida, acerta quem adere ao que procede da Igreja e não à tese contrária.

Nenhuma filosofia, ciência ou arte possui como dado constitutivo de si tamanha garantia de acerto, pois nenhuma dessas coisas goza do dom da infalibilidade. Mas a Igreja, sim, pois ela foi criada santa e nela, se há pecadores – e talvez seja quem mais os possua, pois é como uma rede que pega todo tipo de peixe – contudo ela não peca, portanto, não erra.

Perante premissa dada pela Igreja, é necessário se colocar com a atitude humilde do leproso, que disse a Jesus: “Senhor, se queres, podes limpar-me” (Luc 5, 12) e Jesus respondeu “Eu quero” (Luc 5, 13). Atitude esta que é um escândalo e loucura para o filósofo.

Por causa da convicção nisto que Santo Inácio de Loyola, em suas “Regras para sentir verdadeiramente como se deve na Igreja militante”, estabeleceu a 9ª regra com as palavras “Louvar finalmente todos os preceitos da santa Igreja, e estar disposto para procurar razões em sua defesa, e nunca para os criticar.” (“Exercícios espirituais de Santo Inácio”, Ed. Loyola, 7ª. ed, 2002, p. 190).

Joel Nunes dos Santos, em 28 de julho de 2012.


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