A Vocação Filosófica na Igreja-II

domingo, 29 de janeiro de 2012

Nunca é demasiado insistir na importância do estudo da Filosofia para os de fé católica. Como seria difícil determinar, sem o auxílio da luz da Graça, qual filosofia se deveria incentivar o estudo, a Igreja o esclarece: a de Santo Tomás de Aquino, de quem três Papas (Pio XI. Enc. Studiorum Ducem (29.06.1923); Bento XV. Enc. Fausto Appetente (28.08.21); Cf. João XXIII. Alocução (16.09.60)), ) declararam:

“A Igreja fez sua a doutrina de S. Tomás”.


O Papa Pio V, em 1567, declarou-o “Doutor da Igreja” e o Papa Leão XIII, na Encíclica Aeterni Patris, em 1879, ordenou que seus escritos fossem estudo obrigatório a todos os padres e estudantes de Teologia.

Santo Tomás de Aquino combateu os erros que em sua época possuíam grande força e a muitos desviavam, em resultado de cujo combate transformou a Teologia em uma ciência. Suas obras são a maior articulação entre ciência e fé já realizada por alguém, razão porque com razão é por muitos tido como o maior de todos os filósofos. Como escreveu D. Odilão Moura, O.S.B. (“A Filosofia de Santo Tomás de Aquino e as XXIV Teses Tomistas”), ele

“seguiu as trilhas de Aristóteles, mas ele reformulou de tal modo os ensinamentos do Estagirita, que arquitetou uma outra filosofia”,


do mesmo modo que Aristóteles, seguindo as trilhas de Sócrates e Platão, arquitetou sua própria filosofia. Claro, Santo Tomás tinha à sua disposição algo que nem Sócrates, Platão ou Aristóteles tinham, a revelação cristã. Eles só tinham a guia-los a razão natural, enquanto que Cristo deixou para os que nasceram depois dele critério e fatos, os quais Ele expôs para os judeus sem fé que queriam apedrejá-lo:

“...se não quiserdes crer em mim, crede nas minhas obras, para que saibais e reconheçais que o Pai está em mim e eu no Pai” (João 10, 38).”

Como a verdade é “a correspondência da mente com as coisas”, como explica D. Odilão, então o exame das obras de Cristo – Seus milagres – coloca a inteligência em contato com o sobrenatural. Jesus foi pródigo não somente deixando sinais de sua absoluta realeza, pelos milagres assim também com suas palavras. Como as que usou para responder aos discípulos de João e dar-lhes base para que compreendessem que estavam diante do próprio Deus:

“os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, o Evangelho é anunciado aos pobres...”. (Mateus 11, 5).


A Filosofia de Santo Tomás é “filosofia do ser”, a qual parte das coisas, da percepção do mundo tal como os sentidos (a visão, a audição, o olfato, o paladar e o tato) nos dão a conhecer. Dessas informações fornecidas pelos sentidos, eleva-se progressivamente até atingir o plano abstrativo da inteligência, onde então se chega a conceitos universais. E este é o ponto que interessa a este artigo: sua filosofia parte da realidade das coisas, das informações sobre o mundo que os sentidos fornecem.

Qual a importância disso para nosso assunto, “vocação na Igreja”? A importância é esta: os leigos (todos nós) devemos aplicar nossa inteligência a dominar o “modus operandi” inerente à Filosofia de Santo Tomás de Aquino. Como? Levando a sério as “coisas” que vemos desviar nossas crianças e aplicar a tais coisas as luzes dos ensinamentos da Igreja, do mesmo modo que Aquino aplicava às dificuldades no filosofar as luzes da revelação, a qual recebia da Igreja. De que adianta somente dizermos a nossos filhos que “tal coisa é pecado e portanto não deve ser feita” se não conseguimos, nós mesmos, fazer uma idéia firme e clara do que é o pecado? Nossas crianças convivem com outras, que delas exigem explicações sobre assuntos “complicados”, como são os relativos à fé. Caso nossas crianças não consigam chegar às explicações requeridas, não terão força interior para manterem-se firmes na própria fé.

Por exemplo, nossos jovens estão perdendo (se já não perderam) a noção de pecado. Por desconhecerem a diferença entre moral e lei (no sentido jurídico), não conseguem perceber que é grave agir pecaminosamente, ainda que o Estado somente tolere a conduta ou mesmo que a incentive. Não conseguem compreender que há leis que não podem ser obedecidas, uma vez que afirmem o contrário da moral que a razão natural pode atingir (como é o caso dos 10 mandamentos) e a Revelação confirma. Aqui vale o exemplo da revogação, no Direito brasileiro, do adultério como crime. Desde 2005 o adultério, no Brasil, não é mais crime. Porém, isto não significa que esta conduta seja aceitável, uma vez que atenta os mandamentos relativos à castidade (6º. e 9º.), os quais não são revogáveis.

Como fazer o jovem católico, que procede com a namorada como se casado fosse, entender a gravidade de sua conduta? Teria de ser possível explicar-se o que é ser justo, o que é ser injusto, etc. Mas para isso ele tem de possuir o hábito da reflexão – justamente o hábito da reflexão filosófica.

Este hábito, por sua vez, pode ser ajudado em seu desenvolvimento se, desde o mais cedo possível, os pais habituarem tratar pontualmente as dificuldades dos seus filhos. Não devem nunca pensar que “seus problemas não são sérios, depois ele fará as pazes com o coleguinha que brigou, etc.”. Assim, fazendo, irão desenvolvendo na criança, em seguida no jovem, o hábito de enxergar “coisas” que existem mas não da mesma maneira que existe uma maçã, uma pedra, coisas que podem ser tocadas, pesadas, comidas. Os efeitos da descriminalização do adultério são perceptíveis no curso do tempo, o que exige educação da memória, de modo que seja possível comparar o antes e o depois – o antes, quando o adultério era crime, e o depois quando deixou de ser. Aí será possível comparar com que respeito as mulheres antes eram tratadas e se assim permanece acontecendo nos dias de hoje.

O imediatismo dos jovens, que os leva a agirem de maneira precipitada mesmo em assuntos muitíssimos sérios, pode encontrar um caminho de reversão na medida em que aprendam a perceberem “coisas” que os sentidos não são capazes de informar, mas somente a inteligência pode realmente perceber. Esta educação deve obedecer à mesma estrutura da filosofia de Santo Tomás, que começa das coisas sensíveis e visíveis para atingir as invisíveis e chegar às reveladas. Se ajudarmos aos jovens a refletir sobre aquilo que ele próprio faz – por exemplo, refletir sobre se é possível estar agindo de maneira justa tratando sua namorada como se sua esposa fosse, ainda que ela insista e ponha todo empenho para que ele assim a trate – então isto poderá ajudar, e muito, a que ele desenvolva o aspecto filosófico de sua vocação, responsável pelo desenvolvimento do hábito reflexivo. Porque assim como na variedade de cores da tela do computador estão presentes as três cores básicas, assim também em toda vocação natural estão presentes, em algum grau, elementos componentes das quatro vocações naturais, das quais temos colocado em destaque a filosófica.

Joel Nunes dos Santos, em 28 de janeiro de 2012.
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