Vocação à Paternidade-IV

domingo, 18 de dezembro de 2011

Nunca é demais insistir sobre a extrema importância da vocação para o exercício da paternidade, o que por si só convida a buscar mais clareza sobre o que é a vocação. A este respeito, deve-se então esta definição: “vocação é a forma da personalidade”. Ficando claro o que é “forma” e o que é “personalidade”, lança-se boa luz sobre a vocação mesma.

“Forma” é “o princípio de ação do ente”, o que em grego é expresso pelo termo “idéia”, podendo então ser dito que a forma do ente é a “idéia que o ente sempre manifesta”. Se fizer a pergunta “o que é que sempre se manifesta quando o fogo está presente?”, a resposta será, invariavelmente: “calor”. Toda vez que acendo um palito de fósforo, um isqueiro, o gás da cozinha, não terei outra coisa senão o calor. A única criatura que aquece e ao mesmo tempo ilumina é o sol, sendo ele uma mistura de luz e calor. Mas o fogo, tomado fora do sol, é essencialmente calor, a iluminação nem sempre se manifestando.

O mesmo se pode dizer de tudo o mais que existe: a forma (ou a “idéia”) do ente é aquilo que sempre se manifesta quando ele se torna presente. Por isso encontramos, na Filosofia Clássica, termos como “cavalidade”, o que sempre se manifesta toda vez que um cavalo está presente. Se for um gato, a “gaticidade”, se cachorro, a “canilidade” e assim por diante. O mesmo vale para objeto inanimado, como o martelo: sempre que ele for usado para cumprir a sua finalidade própria (porque ele pode ser usado para escorar alguma coisa, por exemplo), qual a “idéia” que se manifestará? Será a “percutividade”, isto é, a capacidade de alterar a figura material de outros entes mais frágeis do que ele. Por isso se diz que “a forma do martelo é a percussão.” A forma é portanto aquilo que é próprio do ente, que caracteriza o ente, que “faz o ente ser o que é”.

Personalidade é o que a pessoa é aqui e agora. O que a pessoa é aqui e agora resulta de contribuições que vêm do passado, do presente e do futuro. Quando se considera o que o indivíduo é devido ao que procede do passado, a personalidade recebe o nome de temperamento; do que procede do presente, caráter; do que procede do futuro, personalidade. Deste modo: se sou branco, negro, mestiço, alto, baixo, com o dom para a música, para ser prático, etc., digo que tais coisas pertencem ao meu temperamento. Se assumo posição nas circunstâncias que a vida vai engendrando e faço escolhas, radicais ou não, digo que “vou formando o meu caráter”, porque o caráter se forma no presente, como resultado do uso da vontade, a qual atua no presente. Possuindo um temperamento (que é herdado, tanto genética quanto filogeneticamente) e um caráter, estou preparado para certo tipo de futuro. Esta capacidade global para o futuro, chama-se personalidade, porque ela é a confluência do passado, presente e do futuro, para o qual aponta.

Quando Platão denomina “idéia” isto que os latinos chamam “forma”, o que tinha em mente é isto: as coisas manifestam uma unicidade, uma característica própria, que as tornam inconfundíveis umas com as outras. Este padrão de unidade é algo que as coisas procuram manifestar, sem nunca esgotá-lo. Por mais cadeiras que se façam, nunca se esgotarão as possibilidades de cadeiras diferentes que poderão ser feitas: de madeira, de metal, de cimento, de plástico...Sendo isso assim, é sinal de que “alguém” pensou, “teve essa idéia”. Esse “alguém” não é qualquer um, mas é “Alguém”, com “a” maiúsculo. É o Criador, é Deus. Deus tem uma “idéia” para cada ente, quer este tenha ou não inteligência própria para saber disso. A “idéia” da coisa é então “o pensamento que Deus tem da coisa”.

A vocação é a forma da personalidade; ela é a “idéia”que, posta em prática, exibe o melhor da pessoa. Por isso a fé católica nos ensina que a primeira e mais básica vocação do homem é conhecer e amar a Deus.

Quando a pessoa age e exibe o seu ótimo, diz-se que sua ação é vocacionada. Por isso a vocação independe da Economia, da classe social e demais coisas que diferenciam externamente as pessoas. É também por isso que em qualquer lugar que se chegue é possível identificar quem é e quem não é vocacionado para o que faz. Se temos contato com um médico pela primeira vez, não temos dúvida de se ele é ou não vocacionado para o que faz. Se ele é rabugento, pouco atencioso, impaciente, etc., então logo constatamos: ele não é vocacionado para o ofício que escolheu. Quando vemos um servente, um gari, percebemos se sua vocação é compatível ou não com o que ele está fazendo.

O ambiente social e cultural ajuda ou atrapalha, na medida em que seja mais rico (ou mais pobre) em fornecer os instrumentos culturais de que a vocação necessita. Mas não é o ambiente que cria a vocação, ou a destrói – ajuda-a ou a atrapalha no sentido de facilitar-lhe ou dificultar-lhe a expressão. Por exemplo, a vocação ao sacerdócio católico atualmente é dificultada num grau muito maior do que em épocas passadas, pela razão de que estão sendo aplicadas, em escala mundial, tecnologias cujo fim é enganar ao próximo, o que não se fez no passado por pura impossibilidade de fazê-lo – faltavam os meios para tanto. Esta situação faz com que ser católico hoje em dia exige um grau de heroísmo enorme, condição que não afetava tão globalmente os católicos do passado, que tinham para onde ir e escapar de algum poder tirano que houvesse. Hoje a tirania é global, ou caminha velozmente para sê-lo.

A vocação é a forma da personalidade; a personalidade, por sua vez, é o resultado da atuação recíproca entre o temperamento e o caráter. Este atuar recíproco adquire direção positiva tanto maior quanto melhores sejam os hábitos que a pessoa adquira. Ora, se se facilitar que a criança vá adquirindo os instrumentos intelectuais e espirituais (moral correta, acesso a literatura capaz de reforçar o desejo à vida santa, etc.), tudo isso se transformará no hábito – que é assim como uma segunda natureza – de praticar o seu ótimo em tudo que fizer. Isto lhe permitirá, quando atingir a idade de ter de fazer escolhas (de amigos, de trabalho, de cônjuge no caso de ser esta sua vocação) optar com segurança, aceitando ou rejeitando corretamente o que lhe seja oferecido.

Sem dúvida vale a pena procurar identificar o que é próprio da criança (seu amor pelo belo, pelo prático, pelo conceitual, pelo interpersonalístico) e ajuda-la a acessar os instrumentos culturais (físicos e não físicos) que seu tipo de vocação exige. Assim fazendo, ela é capaz de adquirir gosto pela moral sã, de ser feliz e capaz de engajar-se futuramente num ofício que lhe proporcionará vida digna e confortável. Deste tipo de educação que surgem as vocações à vida religiosa, pois ela permite que a criança desde muito cedo seja transparente e sincera, a ponto de ela poder dizer, sem temor, que prefere antes agradar a Deus do que aos homens, possibilidade esta fortemente dificultada no momento histórico em que vivemos.

Joel Nunes dos Santos, em 14 de dezembro de 2011.
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