NOSSA SENHORA DO CARMO

segunda-feira, 30 de junho de 2014


            Certamente o leitor já ouviu falar das sete maravilhas do mundo, que alguém classificou como pertencentes ao “mundo antigo”. Nomearam também depois as sete maravilhas do mundo moderno. Queria eu revelar-lhe que possuo de meu lado as minhas próprias sete maravilhas. Creio que ao leitor seja igualmente permitido ter as suas. Gostaria, pois, de falar de uma dessas belezas extraordinárias, descomunais, que pelo menos a mim causa especial deslumbramento.


            Em primeiro lugar, trago reminiscências da juventude e algumas ligações afetivas: minha missa de colação de grau em Direito coincidiu com o dia de Nossa Senhora do Carmo. Recordo-me também agora de que a nossa missa em ação de graças pela conclusão do segundo grau teve lugar na Igreja Nossa Senhora do Carmo, do Sion. Perto da minha casa há um mosteiro de monjas carmelitas, das quais eu sempre tive inveja – não sei se no bom ou no mau sentido –, em razão da sua heroica coragem de deixar o mundo e generosidade para com Deus. (Na verdade, parece-me que enclausurado, fora dos muros do Carmelo, encontra-se o mundo. Livres são as irmãs). Santa Teresa foi uma das leituras favoritas da minha adolescência e juventude. E ainda é.


            Quando menino eu não gostava de cidades históricas. Achava-as tristonhas. Os passeios em Ouro Preto sempre me pareciam enfadonhos. Chegado, porém, à idade adulta, elas passaram a atrair-me irresistivelmente. E, nessas idas e vindas, conheci Tiradentes, já com vinte e seis anos.


            Gostei tanto da cidade que passei a ir até lá várias vezes ao ano, dedicando-lhe pelo menos alguma parcela das minhas férias. Muitas vezes, a parcela única, total. E foi assim que descobri uma das maravilhas escondidas do mundo: a novena de Nossa Senhora do Carmo em São João del-Rei (que é bem próxima a Tiradentes). É tal o esplendor da Igreja da Ordem Terceira do Carmo, são tão solenes os dias de preparação e os festejos da Rainha do Monte Carmelo, tão extraordinárias as execuções barrocas da bicentenária Orquestra Ribeiro Bastos, que eu me arrisco a afirmar isto: a festa de Nossa Senhora do Carmo em São João del-Rei, com sua novena preparatória, é uma das sete maravilhas escondidas do mundo. Não se trata de uma apoteose, de uma epifania, apenas para mim. Trata-se de um colosso maravilhosamente escondido, um tesouro encravado entre as serras de Minas.


            Que há nessa novena, que há nessa festa? Beleza, tradição e devoção. É possível sentir a fé de nossos avós em sua pureza genuína, simples e profunda, cercada, adornada de grande dignidade, de uma suntuosidade real. Ali se tem a impressão de que a Rainha dos Anjos recebe homenagens mais condignas. De que a misteriosa realeza de Deus deixa-se entrever, deixa escapar algumas faíscas. Há uma pompa real na igreja, na música, nas imagens, na procissão e na própria cidade que a procissão percorre.


            Após as missas às 18h30, há a magnífica novena, enriquecida pela execução de obras antigas e belíssimas por parte da orquestra, entremeada de esplêndidas pregações de aproximadamente meia hora. Costumam ser três os pregadores, que se substituem a cada três dias. Não raro um dos pregadores é um bispo. Um detalhe que a meu ver enriquece o ato é o uso do púlpito antigo, localizado no meio da Igreja, no alto.


            A procissão com as belíssimas imagens barrocas de Nossa Senhora do Carmo e São Simão Stock merece uma especial menção. É tocante a parada da imagem de Nossa Senhora diante do cemitério da Ordem Terceira do Carmo, como que a significar a visita da Mãe de Deus às almas do purgatório, para trazer-lhes alívio e levá-las definitivamente ao paraíso. Na missa das três horas, no dia da Virgem do Carmo, há a imposição do escapulário para aqueles que se inscreveram previamente na Confraria do Escapulário. Vale lembrar que o uso do escapulário, mediante o necessário rito de imposição pelo sacerdote, é enriquecido com abundantes graças espirituais que testemunham o favor de Nossa Senhora pelos carmelitas.


            Ainda se destaca nos dias da novena a disponibilidade de inúmeros sacerdotes para o atendimento de confissões individuais, artigo raro em dioceses devastadas pela teologia da libertação, mas abundante na bela e conservadora São João. A São João del-Rei dos sinos, referência nos artefatos litúrgicos, efervescente na música, de Dom Lucas Moreira Neves, de Nhá Chica resiste valentemente à crise de identidade católica que destroça vários lugares do Brasil.


            Quero eu persuadir a tantos quantos eu possa, a tantos quantos têm sede de água viva, têm fome de Deus e do belo, que pelo menos uma vez na vida se permitam desfrutar da sétima maravilha escondida do mundo, participando da novena (ainda que por alguns dias) e da festa de Nossa Senhora do Carmo em São João del-Rei.


Paul Medeiros Krause

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