13.ª ESTAÇÃO

segunda-feira, 25 de março de 2013





Estamos já às portas da semana santa. Durante a quaresma, a Igreja, que é Mãe e Mestra, recomenda-nos o exercício espiritual da Via-Sacra. Na sua 13ª estação, meditamos na descida de Jesus da cruz e na entrega de seu santíssimo corpo a sua Mãe.

A Virgem Maria, mesmo diante daquele terrível espetáculo da crucificação e morte do seu filho e Filho de Deus, talvez fosse a única pessoa que esperasse e confiasse na ressurreição do Senhor.
 
A Igreja é o corpo místico de Cristo, do qual Ele é a cabeça. É possível que, com a grandiosa renúncia do Papa Bento XVI, alguém tenha se alarmado e pensado que a Igreja tivesse morrido. Talvez algum de nós tenha tido sensação igual à dos apóstolos, de fracasso, de derrota, de vazio. É provável que tenhamos sentido um gosto amargo na boca, como órfãos. Várias teorias catastróficas surgiram, inclusive a ressurreição da profecia de São Malaquias, que, como os mais entendidos têm explicado, nem é profecia, nem é de São Malaquias.
 
Pode ser que no último dia 13 de março ainda muitos de nós nos encontrássemos contemplando a morte de Cristo e a sua descida da cruz. Maria, porém, estava ali, confiante na ressurreição, na restauração, no reerguimento da Igreja.
 
Em outra 13ª estação, isto é, no século XIII, a Esposa de Cristo encontrava-se também em uma situação tenebrosa. A Igreja sofria com flagelos interiores e exteriores, como costuma acontecer aos homens. No seu interior, o relaxamento do clero, o excesso de riqueza, o apego ao poder temporal. Do lado externo, as heresias, notadamente a dos albigenses que açoitava a França.
 
E que aconteceu? O Espírito Santo, senhor do tempo e da história, providencialmente, suscitou três grandes santos: São Domingos de Gusmão, Santo Tomás de Aquino e São Francisco de Assis. Com efeito, poucos séculos da história contaram com tantos santos e de tão grosso calibre.
 
Na sua genial biografia de Santo Tomás, Chesterton diz: “O santo é um remédio por ser um antídoto. Na verdade, por esse motivo, o santo é muitas vezes mártir – ele é confundido com um veneno por ser um antídoto. Vamos vê-lo de modo geral devolvendo a sanidade ao mundo ao exagerar alguma coisa qualquer que o mundo desprezou, o que de modo algum é a mesma coisa em todas as épocas. Mas cada geração procura seu santo por instinto, e esse santo não é o que o povo quer, mas o que o povo precisa”.
 
Ora, o que Chesterton diz dos santos, nós podemos dizer dos papas. Mais ainda: podemos dizer dos papas santos.
 
São Domingos de Gusmão, o apóstolo de Maria, o propagador do santo rosário, o pregador, dedicou-se a combater os hereges, os albigenses, fundando a Ordem dos Pregadores, os dominicanos, dentro da qual viria surgir Santo Tomás de Aquino, o doutor angélico. Enquanto a imagem do Papa João Paulo II pode ser venerada proximamente à basílica nova da Santíssima Trindade em Fátima, São Domingos de Gusmão encontra-se ao lado do altar-mor da basílica velha.
 
Santo Tomás, que possuía também ascendência germânica e ingressara primeiramente no mosteiro beneditino de Monte Cassino, dedicou-se a fazer a síntese da fé católica e a conciliá-la com a razão. Foi ele o cume da Escolástica. Coube-lhe demonstrar que a razão não é uma inimiga; que fé e razão não se excluem, não se opõem, mas conciliam-se. A obra teológica e filosófica de Santo Tomás é perene. A Igreja sempre beberá nessa fonte.
 
Notemos bem que Santo Tomás é filho de São Domingos. O primeiro é o maior intelectual da ordem dominicana. Curiosamente, faleceu ele a caminho do Concílio de Lyon, para o qual foi enviado pelo Papa. Fixemos também sua passagem por Monte Cassino.
 
João Paulo II é, quem sabe, um São Domingos dessa 13ª estação que se repete. É ele o grande apóstolo de Maria dos últimos tempos. João Paulo II, sob a direção de Maria, enfrentou e derrotou a devastadora realidade externa do comunismo, em seu próprio país, a Polônia, e no mundo, unindo-se espiritualmente à paixão do Senhor naquele 13 de maio de 1981, em que a bala o atravessou.
 
Mas, se São Domingos gerou espiritualmente Tomás, João Paulo II trouxe à luz Bento XVI, o “colaborador da verdade”, o defensor da fé, o conciliador da fé e da razão. Se Tomás de Aquino foi, no dizer de Chesterton, o filho primogênito de Domingos, Joseph Ratzinger, o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, também o foi de João Paulo II. Joseph Ratzinger, o perito do Concílio Vaticano II, o teólogo célebre, o filósofo profundo e espiritual. O próprio João Paulo II teria afirmado que os grandes méritos da sua primorosa encíclica Fides et Ratio são devidos à decisiva contribuição do cardeal alemão.
 
Dizem que Santo Tomás era tímido e calado. Chegaram a dar-lhe o apelido de “boi mudo”, ao que Santo Alberto Magno, seu mestre, teria replicado: “Quando esse boi mugir, o mundo inteiro vai ouvir”.
 
Ora, o pensamento de Ratzinger influenciou, influencia e influenciará o mundo inteiro. Somente daqui a algum tempo seremos capazes de avaliar a importância da sua obra. Para mim não será surpresa se no futuro, como Santo Tomás, ele vier a ser proclamado doutor da Igreja. Muitos acreditam ter sido ele o Papa mais culto da história.
 
Ocorre, porém, que a 13ª estação da nossa Via-Sacra não estaria completa se lhe faltasse Francisco. Aquele a quem o crucificado disse: “Francisco, vai e restaura a minha Igreja, que, como vê, está em ruínas”. Enquanto São Domingos convertia os hereges, São Francisco convertia a Igreja, convidando-a a desposar a santa pobreza, a levar vida austera e a desprezar as honrarias do mundo. Francisco produziu uma revolução no interior da Igreja.
 
Diz Chesterton: “A verdadeira diferença entre Francisco e Domingos, que não desmerece nenhum deles, foi que Domingos teve diante de si uma ampla campanha de conversão de hereges, ao passo que Francisco teve apenas de se encarregar da tarefa mais suave de converter seres humanos. Há uma velha história que explica que, embora se possa precisar de um Domingos para converter pagãos ao cristianismo, precisa-se ainda mais de alguém como Francisco para converter os cristãos ao cristianismo”.
 
Por outro lado, sobre Tomás e Francisco, complementa o autor inglês: “E a maneira mais curta de contar a outra história é dizer que, embora os dois homens tenham sido tão diferentes um do outro em quase todos os aspectos, eles na realidade fizeram a mesma coisa. Um deles fez isso no mundo da mente; o outro, no mundo do mundano”.
 
Somos felizardos, caro leitor. Se o século XIII conheceu Domingos, Tomás e Francisco, a nossa 13.ª estação ficará famosa por ter gerado João Paulo, Bento e Francisco, os seus três grandes antídotos.
 
PAUL MEDEIROS KRAUSE é Procurador do Banco Central em Belo Horizonte.
Belo Horizonte, 23 de março de 2013.
Data do memorável encontro de Bento e de Francisco.
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