PALAVRAS DE UM JORNALISTA JUDEU

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013


O QUE IMPORTA É QUE O SENHOR É A CABEÇA E NÓS O CORPO. AMEMOS A CABEÇA E TAMBÉM O CORPO. VIVAMOS O QUE O SENHOR PEDE E A IGREJA ENSINA!




 Carlos Brickmann - Observatório da Imprensa 


Sobre o papa e Igreja católica


         Este colunista não entende a polêmica a respeito das necessidades da
Igreja Católica. Com seus dois mil anos de vida, com mais de um
bilhão de seguidores, a Igreja sabe perfeitamente do que precisa para
continuar sua jornada, e pode dispensar palpites de quem mal sabe
a diferença entre um báculo e uma hóstia. Os cardeais são
selecionados pela inteligência, conhecimentos, visão política,
capacidade de articulação (pois, se não a tivessem, não chegariam
lá). Quantos não cardeais poderiam enfrentar cardeais num debate.


 A Igreja Católica, Apostólica, Romana, é o que é; quem não a
aprecia, quem discorda de seus ensinamentos, não é obrigado a
segui-la. Se o cavalheiro acredita que o fenômeno
da transubstanciação é impossível e não existe, não é católico;
se não acredita nos ensinamentos de Jesus, católico não é. Exigir
que a Igreja se transforme para atender aos anseios de cada um para
então segui-la é excesso de soberba.


Caso não queira segui-la, ou siga apenas alguns de seus ensinamentos e
dogmas, tudo bem, é questão de escolha pessoal. Este colunista, como
judeu, acompanha o debate teológico da Igreja Católica à distância,
apenas para estar informado. 

Se a Igreja desaprova o uso da camisinha e
rejeita o casamento entre pessoas do mesmo sexo, é questão da Igreja,
e não influi nem sobre o comportamento nem sobre a opinião do
colunista. 

Ler textos em que pessoas se consideram perseguidas
pessoalmente por ser homossexuais ou por ter feito um aborto e exigem
que a Igreja mude para atendê-las é muito
cansativo, incompreensível.

A Igreja, certamente, não deve interferir na vida civil, tentando
impor suas ideias a quem não seja católico ou não queira segui-las;
que emita normas religiosas, para quem as aceita, sem querer adaptar a
suas teses as leis de um Estado laico. E quem quiser viver sem levar em
conta as ideias da Igreja que seja livre para fazê-lo, independentemente da opinião do papa, dos cardeais ou dos bispos.

Por isso é difícil entender os partidos pró-Bento 16 e contra Bento
16 que proliferam nos meios de comunicação - há textos em que o
ódio à Igreja transparece, como um que reclama daquele fio de
fumaça negra quando o novo papa não foi eleito e o fio de fumaça
branca quando o novo papa é escolhido (na opinião do comentarista,
isso contribui para a poluição e deveria ser eliminado).

Que cada um siga seu caminho, pronto. Aliás, este colunista vai ainda
mais longe: há corrupção no Vaticano? Deve haver, claro: uma
organização deste tamanho dificilmente estaria imune aos pecados do
mundo. Mas este é um problema do Vaticano, não de quem esteja de
fora. Como dizia um jornalista de alta linhagem, o José Carlos Del
Fiol, que foi subsecretário de Redação da Folha por muitos e muitos
anos, se o dinheiro não é seu nem meu, por que vamos nos preocupar
com ele?

Deve haver corrupção, deve haver pessoas da mais alta
hierarquia envolvidas com atos antissociais, deve haver gente
insuspeitíssima cometendo crimes (aliás, numa organização que teve
o papa Borgia e sobreviveu a ele, por que pessoas hierarquicamente
inferiores não teriam deslizes de menor ou maior gravidade?)

Há, claro (e muitos casos já foram revelados publicamente), inúmeros
e horrendos episódios de pedofilia-e não é pagando indenizações,
como tem ocorrido com frequência, que se obterá o esquecimento desses
crimes. É com julgamentos civis, condenações aos culpados, tudo
associado à perda de prerrogativas eclesiásticas.

Mas a Igreja Católica não teria sobrevivido durante tanto tempo se
fosse apenas isso: é também uma fonte de fé para muitas pessoas, é
também um exemplo de apreço à cultura, às artes e às
letras. Música, escultura, pintura, arquitetura, tudo da melhor
qualidade, nasceu em função da Igreja Católica; foram monges
católicos que, enclausurados em seus mosteiros, copiaram obras
clássicas e permitiram que chegassem a nós.

Não gosta do papa? Continue não gostando. Não gosta da linhada
Igreja? Não a siga. Acredita em outra divindade? Sem
problemas. Discorda do celibato dos sacerdotes? Não queira ser
sacerdote - deixe esta função para quem aceite as normas
disciplinares a ele impostas. 

Mas gastar o papel tão caro de jornais e
revistas e desperdiçar a paciência do consumidor de informação por
achar que uma instituição com dois mil anos de idade e um bilhão e
meio de seguidores tem de se adaptar às suas preferências pessoais,
convenhamos, é meio muito. ( carlos@brickmann.com.br )
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