Vocação e Personalidade

domingo, 2 de setembro de 2012

A personalidade é comparável a “compartilhar”, assim como o temperamento a “herdar” e o caráter a “acumular e proteger”.

O temperamento está na base da vocação, esta do caráter e este da personalidade, consideração que resulta da observação do homem respectivamente, como que parado (estático), desenvolvendo no tempo suas potencialidades e compartilhando com os demais o que ele próprio é. Estaticamente o homem é o cume de toda existência material; dinamicamente, como este cume da existência material se desenvolve e adquire a capacidade de personalizar aquilo em que põe a mão; e finalmente, como a criatura que é essencialmente relação. É essencialmente relação porque é a única criatura capaz de aprender profundamente sobre algo que não viu ou experienciou pessoalmente, mas a conhece por causa do dom da linguagem. O que significa que a vida do homem é um preparar-se para servir ao outro social e profissionalmente.

Ao mesmo tempo, o homem é uma tensão permanente, não “tensão” no sentido de sistema nervoso em desequilíbrio, de pessoa nervosa, mas no sentido em que cada homem é portador de experiências pessoais e intransferíveis; é criatura que molda suas escolhas baseado nos valores que aceita e adota como seus próprios; e é criatura que necessariamente intercambia conhecimentos com os demais. É fundado nas próprias experiências que consolida em sua alma valores que lhe permitem julgar o que deva ou não aceitar, o que parece estar na base da intuição do Santo Papa quando diz que a conversão à fé católica não resulta da força do discurso, mas do “acontecimento” na vida do que se converte – ele vive a ação da Graça, da ação direta de Deus sobre sua alma, ação esta até ajudada pelo discurso, mas que com ele não se confunde.

Alguns homens “radicalizam” a afirmação de valores, como é precisamente o caso dos santos, aos quais a Igreja nos dá como modelos para nos ajudar no caminho da santificação. E dentre o número dos santos, vale aqui destacar Santo Agostinho, o qual, até por questão de hereditariedade, era homem naturalmente atento à força atrativa dos sentidos – o seu pai era um homem incontinente. Antes de sua conversão, dava-se à prática de atender ao encanto dos sentidos, encanto este que o levava a deleitar-se com o teatro e espetáculos sangrentos, que impactavam fortemente seus sentidos externos e internos. No livro “Confissões” (L. III) afirma era alguém que “detestava a segurança, as situações isentas de risco”. Convertido, deu-se à confissão e análise de tudo que envolveu sua vida, de onde surgiu a talvez primeira análise psicológica e sistemática dos sentidos internos e externos, a avaliação da força de cada um, bem como o poder que têm de formar o caráter e qual dos sentidos, nele, era o mais poderoso. (L. X).

Identificando o sentido que nele era o mais poderoso, deu o passo seguinte, isto é, passou a mortificá-lo. A descoberta, por ele, da força resultante da castidade foi a descoberta do meio mais excelente para retirar deste mais forte sentido sua força, o qual é o responsável pela dispersão da alma. E aí pôde trilhar a senda de um saber cujo único alimento possível é somente o que procede da Graça, da ação direta de Deus, veiculada pela Igreja através dos sacramentos.

Na vida natural, aqueles que, não obstante ignorando o fato de que há meios de realizar o objetivo superior da vida (tal como fez Santo Agostinho, fazem os santos e também somos convidados a fazê-lo), trilham as veredas da ascese dada pela mortificação dos sentidos, alcançam glória neste mundo. Tornam-se exímios artistas que criam obras dotadas de tanta força que, ao entrarem no mundo da cultura, modelam a vida das pessoas. Quando vemos, por exemplo, o Santo Papa santificando o uso do iPad, convidando os fiéis a usarem deste instrumento de acesso à rede de comunicação mundial (bem como seus análogos) para fazerem apostolado e assim cumprir a ordem de Jesus de pregar o evangelho a toda criatura, estamos diante do resultado da força do caráter de alguém que, ignorando a fé da Igreja e sua importância, contribui, mesmo depois de falecido, para sua divulgação.

A personalidade de Santo Agostinho nos impacta a todos, quer saibamos disso ou não. Impacta tanto que não há quem deixe de admitir para si a possibilidade de transitar de uma vida miserável, perdida, para uma outra onde a verdade e a justiça são toda sua seiva. O que denominamos “exemplo de Santo Agostinho” pode ser denominado como “o impacto da personalidade de Santo Agostinho” sobre nós, algo extensivo a todos os santos: eles são o resultado, o futuro a ser desejado e imitado por cada um de nós. Porque a santidade deles não é para eles próprios, mas para nós – assim como a vocação de cada pessoa não é algo propriamente para ela, mas para as demais pessoas.

Do mesmo modo, a competência profissional do mecânico do automóvel não é algo para ele, mas algo que o coloca como solução para problemas que outros têm e não ele. Caso contrário, todos os mecânicos que consertassem os caríssimos carros importados seriam milionários. Muito certamente nunca terão os problemas dos quais cuidam todo dia, pois não é crível que poderão comprar carros tão caros.

A personalidade é o resultado final dos nossos esforços para sermos não somente quem somos, mas também quem desejamos ser. Ela é a dotação que possuímos para compartilhar o que recebemos (temperamento) e o que acumulamos (caráter). Ela deve ser a expressão social e profissional da vocação que Deus deu a cada um, cujos contornos só podem ser conhecidos, em última instância, por nós próprios e por Deus, algo assim como a “pedrinha branca” (Ap. 2, 17) sobre o qual será escrito o nome de cada um, no Céu.

Joel Nunes dos Santos, 31 de agosto de 2012.
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