Vocação e Decisão

domingo, 22 de julho de 2012

A vocação é também dom de amar, amor que conduz à compreensão e, desta, à escolha e ao forte envolvimento da alma com este ou aquele assunto. Na vida cotidiana chama-nos a atenção as pessoas que manifestam a inteireza de personalidade resultante de vida obediente a esta sequência. Com mais força ainda nossa atenção deve deixar-se absorver pela vida dos santos, os quais são os exemplos mais perfeitos e acabados deste processo, uma vez que neles tanto as fortalezas quanto as fraquezas da alma ficam muito claras – as fraquezas porque foi lutando exitosamente contra elas que desenvolveram as fortalezas da alma.

Nos santos encontramos o necessário alimento do exemplo saudável, o tão desejado exemplo capaz de arrastar nossa vontade em direção ao que agrada a Deus. E por causa da importância deste fato a Igreja instituiu, na década de 60, um novo calendário de modo que fosse possível a nós, católicos, celebrar as festas de santos mais próximos de nossa experiência contemporânea.

Como “A maior perfeição de cada coisa consiste não em ela ser boa em si mesma, mas em causar a bondade nas outras coisas” (Santo Tomás de Aquino, A unidade do intelecto, Ed. 70, p. 155), a importância do estudo da vida dos santos contemporâneos é devida ao fato de ser mais fácil para nós compreendermos as razões de tais santidades. Facilita muito essa compreensão o fato de suas vidas transcorrerem confrontadas com problemas semelhantes ou mesmo iguais àqueles com que nos defrontamos em nosso dia-a-dia.

Seria conveniente que pudéssemos encontrar na própria família exemplos de vida a serem imitados. Porém, a família é o que mais os governos e governantes atacam hoje em dia, e o fazem com incansável empenho, criando leis que redefinem o casamento, que retiram dos pais a prerrogativa de educarem os próprios filhos, defende-los fisicamente, castiga-los quando necessário e assim por diante.

Num cenário assim, a importância do conhecimento da vida dos santos é enorme e urgente. Ainda mais que se trate de santos contemporâneos, mais próximos da realidade que vivemos hoje. O exemplo de suas vidas, portanto, podem impactar positivamente e com mais força tanto nossas almas, adultos que somos, como também a dos jovens a quem nos empenhamos em educar e prepara-los para a vida adulta.

Tais exemplos são também necessários para o regramento da vocação. Porque a experiência demonstra que a vocação, não obstante ser em si mesma algo bom, contudo só é capaz de dar os frutos adequados quando contextualizada devidamente por uma boa história familiar. Hoje em dia, quando a enorme facilidade de separação dos casais coloca em condição de quase orfandade muitos jovens, verifica-se uma dificuldade, por parte destes, para a aceitação de limites sem os quais a compreensão adulta da vida fica prejudicada. Tendo o pai ou mãe ausente de suas vidas, não chegam à compreensão completa da realidade que a Igreja constitui e, então, passam a encará-la por uma perspectiva totalmente intelectual, sem sentirem o afeto que é condição indispensável para compreendê-la devidamente. Ora, no intelecto o valor e peso das coisas e pessoas variam muito dependendo da perspectiva como são encaradas. Na vida real e concreta esta variação não é tão grande assim. Assim, uma vez que a família seja estruturada, este fato dá ao jovem um alicerce forte e estável para ele compreender, por exemplo, o que significa dizer que “A Igreja é o corpo místico de Jesus, cuja cabeça visível é o Papa”. Quem seja oriundo de um contexto familiar adequado, amoroso, não encontrará dificuldade em captar o peso psicológico da denominação “Papa”, “Mãe de Deus” e assim por diante, o contrário ocorrendo com aqueles cuja história pessoal registra a ausência da figura paterna ou materna. São jovens assim as vítimas mais comuns de ideias que parecem sensatas mas que, no fundo, retiram do coração o desejo de assentir com confiança o que procede da Igreja e dos escritos do Papa.

Uma vez estabelecido o padrão básico da personalidade, a vocação seguirá os caminhos dados por este padrão. Assim, um jovem com vocação filosófica, por exemplo, oriundo de família onde a autoridade do pai e da mãe não se afirmou, devido às mais diversas razões, entenderá que tudo está sob discussão, e tudo que não for demonstrado de maneira irrefutável não deve ser levado acatado. Só com muita dificuldade será possível conduzi-lo à percepção clara da hierarquia que preside a vida da Igreja, que o Papa não pode nem deve de maneira nenhuma ser tido no coração como um homem igual aos outros. Não que ele, enquanto homem, não esteja sujeito às mesmas fraquezas que nós mesmos. Porém, ele é a única criatura que goza da assistência direta do Espírito Santo, ainda que em certas circunstâncias específicas. Ora, assim como “...no doente se encontra o princípio natural da saúde, ao qual o médico administra os meios auxiliares com vista ao aperfeiçoamento da saúde”, e também “O mestre conduz até à ciência de modo a que quem investiga adquira a ciência por si mesmo, ou seja, começando pelo que se conhece até se chegar ao que se desconhece” (Idem, p. 155), é evidente que o pensamento, mesmo hipotético, do Papa deve ser tomado como de maior credibilidade do que os dos outros homens que não são Papa. Porque se ele desfruta da experiência de assistência direta do Espírito Santo, a qual garante sua infalibilidade em certas ações que pratica, do mesmo modo que ao lermos algum livro não somos mais a mesma pessoa, ele então desfruta de algo que as demais pessoas só poderiam desfrutar acidentalmente e não como coisa certa.

O mesmo vale para as demais vocações: um indivíduo rejeitará isto ou aquilo porque falta estética, outro por causa de imperfeições psicológicas, outro por falta de objetividade material do raciocínio e assim por diante.

Quando a vocação não encontra substrato familiar que lhe forneça os primeiros e principais instrumentos que ela necessita para bem se expressar, não é que ela perca a força que naturalmente tem sobre a personalidade, mas sim que ela orientará esta força em vista de decisões insensatas.

Joel Nunes dos Santos, em 21 de julho de 2012.
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