As Vocações de Pedro e Paulo

domingo, 1 de julho de 2012

Pedro e Paulo são os modelos dos extremos possíveis das vocações na Igreja. De um lado, Pedro, o homem comum, o “homem do povo”, o homem iletrado, espontâneo, “pavio curto”; de outro, Paulo, o homem diferenciado, letrado, metódico, legalista e inflexível.

Em comum, em ambos estava evidente a disposição à obediência, que tem-me parecido ser talvez a mais superior e forte característica da vocação religiosa. Esta virtude tornou possível a ambos serem recipientes modelares da Graça, pois pela obediência elevaram-se acima do próprio temperamento e caráter, isto é, acima do que os constituía por hereditariedade e no que se transformaram pelas escolhas feitas ao longo da vida.

Em ambos notamos, nas poucas palavras, respectivamente, do Evangelho e dos Atos dos Apóstolos, uma enorme riqueza vocacional, riqueza esta presente nas palavras de Jesus a eles nos momentos em que os chamou para seus respectivos apostolados.

No Evangelho, quanto a Pedro, lemos:

“Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas (os poderes) do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus (a Igreja): tudo o que ligares na terra será ligado no Céu e tudo o que desligares na terra será desligado no Céu” (Mt 16, 18-19).
Nos Atos dos Apóstolos, quanto a Paulo, lemos:

"Durante a viagem, estando já perto de Damasco, subitamente o cercou uma luz resplandecente vinda do céu.
4 Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues?
5 Saulo disse: Quem és, Senhor? Respondeu ele: Eu sou Jesus, a quem tu persegues. [Duro te é recalcitrar contra o aguilhão.
6 Então, trêmulo e atônito, disse ele: Senhor, que queres que eu faça? (At 9, 3-6)

A riqueza vocacional que significam Pedro e Paulo fica evidente quando se leva em conta também isto: em toda sociedade é possível perceber quatro estratos sociais dentro dos quais os homens se encaixam. Há o estrato social composto pelos homens simples, incultos, que somente cumprem ordens, chamados “operários”; acima destes, o dos que organizam o trabalho e racionalizam o emprego do tempo no desempenho das tarefas, os chamados “administradores”; acima destes, em poder de ação, os que desempenham poderes de exército e polícia; e, acima de todos eles, os letrados, os que estatuem o certo e o errado, os que, em última instância, constituem o reino do “príncipe deste mundo”.

Pedro e Paulo representam, respectivamente, o menor e o maior neste mundo, o operário e o letrado. Mas é justamente ao operário que Jesus escolhe como o homem sobre o qual a Igreja seria construída. A Igreja, que vive exclusivamente da vida da graça, de quem todos que nela ingressam podem receber o alimento da vida espiritual, os sacramentos e a doutrina, não existe sem Pedro, assim como este não existe sem a Igreja. Pedro é “pedra” – assim Jesus o disse – não por causa da dureza do coração, mas sim por causa da firmeza na fé, firmeza esta capaz de “confirmar seus irmãos”, isto é, os sacerdotes e nós, os simples fiéis.

Paulo “persegue” Jesus, o que não para de fazer nem antes nem depois de sua conversão. Primeiro, perseguia no sentido de caçar e mandar matar os que, no seu entendimento farisaico, corrompiam a verdadeira fé. Depois, continuou “perseguindo” no sentido em que às vezes se emprega o verbo perseguir, com o sentido de alguém que vai em direção à meta suprema de sua vida. Perseguiu e teve êxito, pois chegou a ponto de dizer “Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim.” (Gál 2, 20)

É de se notar que no primeiro Concílio, em Jerusalém, tanto Pedro quanto Paulo cederam ao que, por força apenas de suas naturezas, não cederiam: Pedro cedeu e renunciou à idéia de que todos que se convertessem à fé católica deveriam ser circuncidados; Paulo cedeu e renunciou à idéia de que nada dos costumes judeus teria de ser respeitado pelos que se convertessem à fé católica. E Paulo, que seria “dos maiores deste mundo”, porque homem letrado, submeteu-se a Pedro, um dos “menores deste mundo” que nenhum criador de organização ou empresa escolheria para ser sua cabeça. Nenhum administrador de empresa, sensato, escolheria um homem simples, “do povo”, para gerir seus negócios, menos ainda se para tanto tivesse que haver-se com indivíduos astutos, maliciosos e, numa palavra, tanto material quanto sutilmente perigosos. Mas, como disse Santo Agostinho, “Deus vocaciona aqueles que chamam” e, Paulo, que a sabedoria de Deus é escândalo ou loucura para os homens (cfe. 1Cor 1, 23). A escolha de Pedro já exibe o milagre de Deus, o mesmo podendo ser dito de Paulo pois neles fica nítido que enquanto agiram seguindo somente a própria natureza, erraram sempre; tão logo passaram a agir dóceis à Graça, então o primeiro tornou-se realmente a Chave e o segundo, a Espada – tornaram-se, os dois juntos, expressão de todo o Evangelho de Cristo, nas palavras do Papa Bento XVI (Concelebração Eucarística e Imposição dos Pálios aos Novos Arcebispos Metropolitanos na Solenidade de São Pedro e São Paulo, sexta-feira, 29 de junho de 2012, na Basílica Vaticana) .

Pedro e Paulo, modelos das vocações extremas na Igreja, porque forte e inabalavelmente obedientes – obedientes à Igreja, portanto a Jesus, portanto a Deus.

Joel Nunes dos Santos, em 29 de junho de 2012.
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