A Vocação no Cotidiano

domingo, 17 de junho de 2012

Aproveitando um momento de disponibilidade de tempo nesta corrida vida de São Paulo, pude ajoelhar diante do Santíssimo exposto numa antiga Igreja do centro da cidade. Tão logo ajoelhei, olhei-O, e eis que as palavras de Jesus, “se não vos transformardes e vos tornardes como criancinhas...” (Mat 18, 3) surgiu-me na alma com a força de consolo de Maria. Tanto mais isso se pode dizer por causa da paz no coração que daí resultou.

Nesta hora veio-me à lembrança cenas da infância, quando era simples aceitar as “regras do jogo” da brincadeira a seguir: “Agora você é tal pessoa, e fará isto e aquilo”. As demais crianças, assim como eu, se encaixavam cada uma no papel que lhes era designado. Nenhuma resistência ou obstáculo interior, nenhum pedido de explicação, absolutamente nada se interpunha na imaginação que impedisse a obediência infantil às regras do jogo e assunção do papel designado.

Ao dispor-me ajoelhar diante do Santíssimo, notei que só o fazia porque meu coração aceitava – aceita – como um coração de criança aceita algo sem pedir provas. Basta que a Igreja diga que Jesus ali está escondido, é o quanto basta.

Em seguida olhei para mim mesmo como quem procura ver o que vai no próprio coração, em busca do motivo de tamanha paz e comoção. Vi então um coração cheio de ternura por uma pessoa. Isto mesmo: ternura por uma pessoa, acompanhada do encanto que geralmente sinto em presença de algo esteticamente bem apresentado. Ternura por uma pessoa, Jesus, e comoção ao notar a beleza do ostensório.

Logo ficou claro que o que passava em minha alma, neste momento, resumia com singeleza sem igual a estrutura mesma de minha vocação natural. A ternura que senti, o encanto pela beleza do recipiente, como moradia bem construída para hospedar o Rei da Glória, faziam vibrar a vocação cujo acento é na pessoa e complemento na estética.

Voltando para casa, com a alma mergulhada numa paz semelhante a suave brisa, pus-me a imaginar como reverberaria no coração de outras pessoas a contemplação do Santíssimo. Partindo do fato de que a fé inicia pelo “Creio” (ou “Cremos ), o conteúdo desta profissão de fé encontra, em cada coração, razão conforme com a vocação natural de cada um.

Uns crêem porque não duvidam de que Jesus é O amigo, é o interlocutor verdadeiro e eternamente buscado por quem queira de fato atingir a felicidade que não se esgota. Ele é a pessoa que se põe no lugar de cada um. E este é o sentir dos que possuem vocação interpersonalística.

Uns crêem porque a Igreja, ao mandar crer, o faz usando símbolo adequado e apto a apoiar a fé. Tais pessoas crêem porque sua alma fica impactada pela excelência artístico-arquitetônica inspirada pelo Espírito Santo ao longo dos séculos de existência d Igreja a respeito da maneira como deveria ser o culto que Lhe agrada e sob qual estética. Como ouvi de alguém certa vez: “Eu creio na Eucaristia porque ela é bonita”. E com os tais é assim porque a vocação é principalmente artística.

Uns crêem porque sentem a alma encantar-se com o engenho de Deus, com a praticidade de Deus, que ao longo da história da Igreja sempre permitiu fácil acesso a Ele próprio, sem subordinar Sua presença ao caráter do sacerdote que pronuncia as palavras que O invocam. E aqui não poderia deixar de recordar a solução que as empresas, na minha infância e na cidade do interior onde nasci, encontraram para o problema de assalto dos transportadores de valores. Por anos os empregados das empresas saíam do banco transportanto valores dentro do mesmo tipo de saco com que as padarias ensacavam o pão. A nenhum ladrão ocorria assaltar alguém com um saco de pão na mão. Da mesma forma, o maior de todos os tesouros fica exposto no altar, à disposição de quem O queira contemplar. Que maior ciência – que sempre se volta à solução prática do problema ao qual se aplica – pode haver que esta que a Igreja aplica? E este é o sentir dos que possuem vocação principalmente científica.

Uns crêem porque Deus, através da Igreja, diz: “Crê”! E aqui convêm as palavras de Santo Agostinho, "Credo ut intelligam, intelligo ut credam", acredito para poder entender e quanto mais entendo, mais acredito. A Igreja dá a premissa, e premissa segura é o que a Filosofia procura de modo que seu discurso seja coerente e conversível com a realidade mesma das coisas. E esta é a atitude interior do coração dos que têm na linguagem instrumento de transmissão de conhecimento e, portanto, são dotados de vocação principalmente filosófica.

No ato de se colocar diante do Santíssimo e adorá-lo está presumido o “Eu creio” com que inicia a fé católica – a única fé que assim inicia, cfe. ensina Bento XVI no seu livro “Introdução ao Cristianismo”. E agir em coerência com esta fé parece ser pôr em prática as palavras de São José Maria Escrivá “A vocação cristã consiste em transformar em poesia heróica a prosa de cada dia.” E cada um pode elevar-se à condição de herói na medida em que sua fé seja firme; e ela será tanto mais firme quanto mais a pessoa a receba em conformidade com a vocação que Deus lhe deu.

Joel Nunes dos Santos, em 14 de junho de 2012.

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