Vocação e Responsabilidade

domingo, 4 de março de 2012

No meu trabalho como professor universitário, houve semestre em que estavam sob minha responsabilidade duzentos e cinquenta alunos ou um pouco mais do que isso. Desse total, talvez somente uns trinta alunos não precisavam trabalhar. A menor quantidade de alunos por classe era em média trinta alunos, a instituição esforçando-se para quea média das classes fosse de sessenta alunos. Entre os que trabalhavam, na hipótese de não precisarem mais fazê-lo (caso ganhassem na loteria, por exemplo) nunca aconteceu haver mais de três ou quatro alunos por classe que continuariam envolvidos (a título de trabalho ou hobby) com o assunto de sua atividade profissional.

Outra característica dessas classes era a enorme dificuldade para tratar de algum assunto até esgotá-lo suficientemente, ainda que no início tenha despertado em alguns alunos interesse considerável.

Quando comecei nesta atividade magisterial, fiquei espantado com a ausência de interesse mais profundo por algum tema cultural e fortíssimo interesse por coisas de ordem prática, como algum assunto que tivesse chamado a atenção através da mídia. Senti então que teria de fazer esforço máximo para perceber algo de vocacional num ou noutro aluno e conduzir a aula baseado nesta descoberta. Se o conseguia, é porque rezava muito para São José antes de entrar em sala de aula. Talvez por causa disso costumava ouvir de algum aluno: “Professor, o senhor parece realmente interessado em que a gente aprenda alguma coisa. O senhor fica alegre quando a gente acerta alguma coisa e parece interessado que a gente esteja no rumo certo.” “Os demais professores não lhes parecem preocupados com isso também?”, perguntava. “Não. Até agora, só o senhor.”

Tentando me adaptar a este contexto, esforçava-me por aproveitar as oportunidades em que algum traço vocacional do aluno ficasse claro para mim. Conduzia então o diálogo em torno da matéria proposta em conformidade com o que fizesse sentido para o aluno em questão. Deste modo, conseguia atrair a sua atenção, pois ficava-lhe parecendo que o assunto dizia respeito a ele. Os demais pareciam ficar curiosos por verem até onde aquela conversa personalizada com um de seus colegas ia levar. Isso animava outros alunos a opinarem e, portanto, a se envolverem com o assunto.

A raiz do interesse do aluno parecia-me ter a ver com aquilo que se expressa pelo conteúdo do verbo “responder”, conteúdo de onde deriva a palavra “responsabilidade”. Por que algumas coisas atraem quase que espontaneamente e outras não? O exame da etimologia dessas palavras já anuncia a resposta à pergunta.

“Responder” é a junção de “re” (= de volta, novamente, como em “refazer”, fazer de novo) mais “spondere” (= garantir, prometer), daí o substantivo “responsabilidade”: devolver o que foi prometido.

Mas esta “promessa” e sua respectiva devolução não diz respeito a algo convencional, a uma combinação do tipo “vou visita-lo no próximo sábado”, o que posso ou não fazer sem qualquer consequência. O sentido é mais profundo, muito mais. É algo que diz respeito à constituição do homem, à constituição do homem tal como ele foi pensado na mente de Deus ao decidir criá-lo. Assim, lê-se em Gên 2, 18 “Não é bom que o homem esteja só”. À primeira vista pode-se pensar que o homem pode viver só, embora viver desse jeito seja algo monótono, desagradável, sem graça. Este não parece ser o verdadeiro sentido daquelas palavras. Ao contrário, aquelas palavras parece quererem afirmam isto: é impossível ao homem viver só, assim como é impossível haver cadeira feita de gases. Para ser possível ao homem viver só ele não poderia, de maneira alguma, ser criatura dotada (como atributo de sua essência) de linguagem articulada. Porque com esta capacidade, ele é capaz de comunicar experiências com tamanha fidedignidade que um outro, que receba esta comunicação, torna-se capaz de conhecer esta mesma coisa sem precisar experimentá-la fisicamente. Quem de nós carece de certeza na existência de Jesus e os apóstolos, de Pilatos e Barrabás?...Temos a impressão de saber mais deles, do que eles pensavam, do que de nossos parentes. E não somos contemporâneos daqueles personagens, os quais conhecemos tão somente por causa do testemunho que deles nos chegaram. Pois bem, o homem, que é capaz disto – e nenhum outro animal é – como poderia viver só, sem ter com quem aplicar o dom da fala, da comunicação? Não, mais fácil seria existir uma cadeira feita de gases.

Deve-se, claro, distinguir entre estar solitário, que é uma condição física, com estar só. Quantos não querem, como Santa Teresa de Ávila, ficar solitários para então não estarem solitários – porque então estão somente com Deus?... De modo que ao homem é possível estar solitário, mas não só, no sentido de absolutamente só.

Voltando aos alunos. Para aprenderem alguma coisa, precisavam entender que eu estava falando de algum problema particular de um só ou de vários deles. Para falar o que tinha a ver com um só ou vários deles, eu tinha de perceber algo de vocacional em um ou em vários deles. Aí conseguia despertar neles aquela parte da estrutura da sua alma onde Deus inscreveu essa lei da responsabilidade, isto é, daquilo que faz com que o indivíduo reaja, devolva o que prometeu devolver.

Espalhado aqui e ali, na Bíblia, encontramos informações sobre a estrutura do homem (algo comparável com a planta de um edifício), como a já citada. Outra dessas informações, pertinente ao nosso assunto, é a que se lê em Ecle 5, 3-4: “. Portanto, cumpre teu voto. Mais vale não fazer voto, que prometer a não ser fiel à promessa.”

A vocação é dom de Deus, é algo que confere a cada pessoa um sentido implícito de promessa. Por exemplo, sendo a vocação interpersonalística, em toda e qualquer situação (e durante a vida inteira) a pessoa está comprometida pela promessa de tomar como próprio aquele assunto que de início não lhe interessa nem um pouco – mas passa a interessar porque interessa a algum próximo. O mesmo se diga do que possui vocação científica: nele atua o sentimento da promessa implícita, arraigada na pessoa, de encontrar solução prática (e não teórica) para problemas concretos. Para os de vocação artística, a promessa de que reunirá as coisas disponíveis e com elas criará uma “presença” capaz de fazer convergir para si a imaginação das pessoas, fazendo-as por um instante se esquecerem de tudo mais. Para o de vocação filosófica, a promessa é de que encontrará a melhor resposta possível ao dilema intelectual que impede a comunidade de decidir razoavelmente, resposta tão verdadeiramente boa que não seja possível rejeitá-la.

Os efeitos negativos da desobediência ao senso de responsabilidade, no sentido vocacional aqui tratado, sobre o qual Deus estruturou a alma humana são enormes. Por exemplo, quando o Supremo Tribunal Federal decide algo, ele o faz baseado nas informações técnicas com que é municiado. Se os cientistas que o municiam fornecessem informações indiscutivelmente verdadeiras, suas decisões seriam sempre sábias e isentas de críticas. Porém, não cumprem seus deveres quando afirmam o contrário do que suas ciências já demonstraram ser verdade. Por exemplo, a ciência informa que os cromossomos do feto são distintos dos cromossomos da mãe; portanto que se trata de dois indivíduos diferentes, ambos com a mesma dignidade de pessoa, não havendo portanto o direito de a mãe (ou qualquer outro) decidir eliminá-lo. Se os cientistas não se mantêm fiéis a esta verdade, à qual sua ciência conduziu, e dão outra informação, comprometem a sabedoria da sentença e fazem surgir na sociedade a figura de um direito intrinsecamente mau, ofensivo não somente ao homem em sua dignidade de criatura capaz de Deus, como ao próprio Deus.

Agindo contrariamente à responsabilidade, criam um triplo problema: para si mesmos porque disso darão conta, pois Jesus esclareceu que mais culpado é quem manda do que quem faz; para os componentes do STF, que também darão conta do erro de sua decisão, pela mesma razão, pois em relação à sociedade, estão na posição de quem manda; e para a sociedade em geral, que estará submetida a leis que não admitem cumprimento, porque ofendem à dignidade do homem e a Deus conjuntamente.

Joel Nunes dos Santos, em 02 de março de 2012.
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