Vocação e Liberdade

domingo, 11 de março de 2012

Vocação diz respeito a fazer bem e com autoridade o que pode – e até deve – ser feito. Liberdade é amar fazer o que pode – e deve – ser feito. Liberdade não é simplesmente fazer o que quer, mas o que, além de poder ser feito, está contido dentro dos limites da prudência e da justiça.

A liberdade reflete-se na vida exterior, mas ela se origina na alma. Para constatá-lo, basta observar que há pessoas a quem não faltam recursos materiais que, em tese, eliminam todos os obstáculos que possa haver e que as impeçam de fazer o que quiserem. Mas são realmente livres? Caso fossem – e caso a posse de recursos materiais garantissem a felicidade, a qual presume a liberdade – nossa época seria, em toda a História do homem, a mais feliz de todas. Nunca houve civilização mais rica ou mais poderosa do que a nossa.

A primeira feição de liberdade que vemos no homem é aquela que se estampa no rosto de uma criança, em particular no seu olhar. Custa-me imaginar que alguém não tenha se admirado de ver tanta transparência, um olhar tão humilde, tanta luminosidade no olhar quanto no de uma criança. Seus olhos de uma vivacidade sem par se dirigem para as pessoas e o mundo à volta sem buscar isto ou aquilo, mas apenas olha para o que há, vendo o que se dá, simplesmente constatando que as coisas existem. É um olhar inocente, olhar sem juízo, sem resistência; um olhar que propriamente só olha e contempla e vê o que está na frente e admite ser visto. O oposto disso é a opacidade do olhar do mais carinhoso do animal, o cão, a quem hoje se concedem tantos privilégios. Diante do olhar de uma criança, o do cão é algo morto. Quem já se entregou à curiosidade de comparar os dois olhares não tem a menor dúvida do que digo.

É claro que a repetição deste tipo de olhar na vida adulta – olhar que só olha e não prefere nem pretere, não escolhe ou rejeita nada – parece ser indício de algo ruim. As décadas de 1960 até 1990 provaram isso: nessas décadas, pulularam seitas esotéricas, “espiritualistas”, que destruíram a alma de muitos e as que o fizeram com mais força eram justamente as que exploraram a ignorância e inocência das pessoas e lhes propuseram repetirem este olhar infantil. Propuseram que os seguidores olhassem sem julgar, quando então os “mestres” ficavam livres para praticarem as mais indecentes condutas e eles, tendo suspendido o senso moral – assim entendiam dever ser o olhar sem julgar – a tudo aceitavam. Essa é a maneira errada de conceber a retomada da liberdade que se reflete no olhar da criança, olhar este que parece ter sido o de São Francisco de Assis, tanto que o levou a dizer “As criaturas da terra sentem todas como nós. As criaturas aspiram todas por felicidade, como nós. As criaturas da terra amam, sofrem e morrem todas como nós. Portanto, as criaturas do Criador onipotente são iguais a nós, são nossas irmãs” (Youcat – Catecismo para os Jovens – p. 44).

A este olhar consegue chegar o homem adulto quando, desde criança, adquiriu e manteve o hábito de seguir caminho vocacionalmente incentivado.

Assim como o bebê exibe o olhar de que falamos acima, a criança inocentemente vai-se atraindo por certas coisas que, bem analisadas, podem ser referidas a um dos quatro objetos das vocações naturais, a explicação, a solução prática, a beleza ou a solidariedade. Na medida em que ela vá sendo apoiada nesse interesse a que sua alma espontaneamente impele, tanto mais ela vai preservando o senso de liberdade parecido com aquele próprio do olhar do bebê.

Esta é a verdadeira liberdade – ou isto é o que está na raiz da verdadeira liberdade. Porque se a pessoa assim se conduz na vida natural, então ela terá sensibilidade suficiente para deixar-se levar pela vida sobrenatural. Quando Deus disser para ela “segue-me”, ela levantará e O seguirá sem opor dificuldades ao gesto.

Joel Nunes dos Santos, 10 de março de 2012.
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