Vocação: reflexão útil em época de carnaval

domingo, 19 de fevereiro de 2012

O Beato Papa João Paulo II disse que no “mundo contemporâneo, devemos constatar que nele a consciência do pecado se debilitou de maneira notável”, em resultado da “indiferença religiosa, ou da rejeição de quanto a reta razão e a Revelação nos dizem a respeito de Deus”. (Audiência, quarta-feira, 25 de agosto de 1999). Disse também que em diversas sociedades contemporâneas estão organizadas de tal modo que o homem, ao cumprir as leis, acaba pecando.

No Brasil é de se crer que a culminância do incentivo a que o indivíduo peque se dê no carnaval, o que não foi sempre assim. “Infelizmente, há muito tempo que o Carnaval deixou de ser apenas um folguedo popular, uma festa quase inocente, uma brincadeira de rua, uma diversão até certo ponto sadia.” (Bispo Dom Fernando Arêas Rifan, artigo “Carnaval”, Folha da Manhã, Campos, quarta-feira, 12 de fevereiro de 2012).

Em razão do que Dom Fernando aconselha:

“Devido à devassidão que acontecem nesses dias de folia, os cristãos mais conscientes preferem se retirar do tumulto e se entregar ao recolhimento e à oração. É o que se chama “retiro de Carnaval”, altamente aconselhável para quem quer se afastar do barulho e se dedicar um pouco a refletir no único necessário, a salvação eterna. É tempo de se pensar em Deus, na própria alma, na missão de cada um, na necessidade de estar bem com Deus e com a própria consciência. “O barulho não faz bem e o bem não faz barulho”, dizia São Francisco de Sales.”

Finaliza:

“Passemos, pois, este tempo na tranquilidade do lar, em algum lugar mais calmo ou, melhor ainda, participando de algum retiro espiritual.”

A questão que resta é: e para os que, por algum motivo, estão impedidos de acionarem essas alternativas? Por exemplo, aquelas pessoas cujas famílias dependem de seu trabalho, os quais são ofertados justamente no carnaval, ocasião em que os poderes públicos investem vastas somas de dinheiro? As costureiras, os músicos, etc.? A solução é trabalharem sem consentirem com o pecado. Para tanto, é conveniente que a mente não distraia, o que a pessoa consegue fazer, até com relativa facilidade, quando adquire o hábito de refletir no que é conforme com sua vocação natural.

O que é vocacional possui grande força sobre a imaginação. Educando a imaginação a manter-se ligada ao assunto conforme a vocação faz com que a pessoa consiga forças para resistir aos apelos que só fazem dispersar sua concentração, debilitando sua vontade e fazendo-a pecar.

Não há dúvida de que as pessoas, principalmente em grupo, se comportam de maneira bem diferente do que fariam caso estivessem sozinhas, fora do grupo. Como um pacato amigo que contou ter ido ao Morumbi assistir a um clássico. Disse que quando deu por si, estava gritando, verberando impropérios com a mesma veemência dos torcedores no meio dos quais se encontrava. Reconheceu que esta conduta não era daquelas que o caracterizavam.

Aqui não é o lugar adequado para explicar os fundamentos fisiológicos e psicológicos de por que este tipo de coisa acontece. Basta apenas dizer que se a pessoa não toma posse da própria imaginação, alguma outra coisa tomará, a carne, outros indivíduos, o demônio com suas pecaminosas sugestões...

Mesmo levando apenas em conta somente as forças da vida natural, há procedimentos relativos à vida interior capazes de dificultar ou mesmo impedir o domínio da imaginação por terceiros, com isso impedindo-se de pecar. Claro que para não pecar é necessário o auxílio de Graça. Me refiro, portanto, àquilo que depende de cada pessoa individualmente considerada – sua capacidade para não consentir com o pecado, capacidade essa baseada em suas forças naturais.

O que permite não ser influenciado pelo meio, mantendo sob controle a imaginação, é a fixação a atenção em algo que a própria pessoa destaca do conjunto das informações que lhe afetam os sentidos. Se isto no que ela concentra sua atenção for conforme com a vocação, conseguirá bons resultados. Vou a um exemplo.

Na década de 1980 assisti a uma concorrida partida de vôlei, logo depois de a Seleção Brasileira de Vôlei ter sido campeã. O jogo era entre esta Seleção e a “Seleção do resto do mundo”. O estádio estava cheio, não cabia mais ninguém. Alguns torcedores entraram com lata de cerveja na mão, outros já tinham bebido antes de lá chegarem, de modo que a probabilidade de ocorrer algum incidente não era pequena. Mas os administradores foram prudentes e contrataram um profissional que euforizava ou acalmava o público com cantos, palavras-de-ordem, gestos... Uma pessoa conhecida, vendo-me quieto, como que indiferente ao que acontecia, me criticou, dizendo que eu parecia não ter sangue, que não dançava como faziam as demais pessoas, sequer mexia o ombro, etc.. O fato é que eu estava concentrado, analisando a tecnologia utilizada para aquele tão eficiente controle de massas. O sistema de som me chamava a atenção sobremaneira: como os engenheiros conseguiram criar aparelhos capazes de reproduzir em ambiente amplo a impressão de estereofonia que parecia ser possível somente em ambiente doméstico? Observar essas coisas era totalmente conforme com o componente artístico (musical) de minha vocação natural. Porque me concentrava nisso, ficava fora dos efeitos fisiológicos (e psicológicos) provocados pelas músicas sobre o público. O principal desses efeitos é a alteração do ritmo cardíaco da pessoa, o que a leva a perder, em consequência, a noção do próprio eu – razão porque mesmo alguém pacato, como o citado amigo, acaba cedendo à influência da massa e se comportando de maneira inadequada.

Cada pessoa possui, como algo inato, potencial para conseguir manter-se indiferente aos apelos do meio e agir, nos limites possíveis às suas forças naturais, como que obedecendo, sem o saber, ao que São Paulo exortava que o católico fizesse: “Não vos conformeis com esse século” (Rm 12,2), não se deixando ser arrastado por ele, pelos seus apelos, tão fortes nesta época de carnaval. Se tal possibilidade existe mesmo levando em conta a vida natural – pondo-se ênfase naquilo que seja conforme com vocação – quanto maior poderá ser o resultado para quem participe da vida da Graça e se dedique a refletir persistentemente num aspecto da fé da Igreja, naquele aspecto que, além de ser conforme com sua vocação, seja algo de sua conta.

É melhor conservar a possibilidade de não ter de participar de ambientes hostis aos deveres da fé católica. Mas, não havendo tal escolha, não custa fazer uso daquilo que Deus dotou todo homem, católico ou não, isto é, da força que sua vocação natural lhe confere. Se ela não é suficiente para fazer com que a pessoa evite o pecado, com certeza é forte o suficiente para, estando no meio dos que pecam, não imitá-los.

Joel Nunes dos Santos, em 18 de fevereiro de 2012.
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