A Vocação Filosófica na Igreja – IV

domingo, 12 de fevereiro de 2012

A vocação é dom que Deus dá a cada pessoa, de modo que ela seja apta a ver no outro um próximo, no sentido ilustrado pela “Parábola do bom samaritano”: próximo é aquele que se importa real e concretamente pelo outro.

Ninguém pode dar o que não tem, mas somente o que tem. Para isso, Deus, em sua Providência, conferiu a cada pessoa alguma possibilidade de poder dar-se ao outro real e concretamente. Justamente o que faz a pessoa quando age em prosseguimento de sua vocação. Na vida cotidiana, quem assim age costuma escutar que ele “parece outra pessoa”, diferente do que ela costuma ser no trabalho ou em outra atividade a que ela se dá “somente para ganhar dinheiro”.

A parábola do bom samaritano (Lucas 10, 25-37) é como um resumo da fé católica, característica esta que se torna visível quando a lemos com o auxílio de Hugo de São Vítor. Nela vê vários sentidos superpostos que vão desde o simples conselho de imitar o exemplo ali mostrado, o de ajudar a quem precisa, até o seu sentido mais superior, o da regeneração do gênero humano. Toda a interpretação, segundo este santo, pode ser lida em http://cristianismo.org.br/ese01-f.htm, para onde remeto o gentil leitor.

Os dois mandamentos, os quais resume toda a lei e os profetas, de amar a Deus e ao próximo como a si mesmo, contêm dificuldades para serem obedecidos. A dificuldade de amar a Deus se resolve pelo amor ao próximo. O amor ao próximo, podemos praticá-lo no dia-a-dia começando por aquelas pessoas à nossa volta, irmãos, filhos, pais e assim por diante, até chegar aos mais distantes, àquelas pessoas nas quais vemos fortes razões para delas nos afastarmos. E como fazer isso? Agindo, com elas com o mesmo espírito de lealdade e correção com que agimos com os que amamos.

Isto é possível fazer quando a atividade a que nos vinculamos corresponde à nossa vocação. Assim, podemos conservar o amor por alguém que seja (ou se torne) odioso porque nela conseguimos ver algo de bom, de positivo. Por exemplo, há pessoas com as quais é dificílimo conviver de maneira mais próxima e íntima, e mesmo socialmente. Porém, se temos um ofício e este ofício é vocacionado, no momento em que nos relacionarmos com tal pessoa por força dos deveres de tal ofício, por certo que conseguiremos ir além da antipatia pessoal que por ela sentimos.

Nosso próximo é aquele com quem nos importamos realmente e por quem estaríamos dispostos a nos sacrificar. O que é coisa rara de acontecer, pois nossas fraquezas são tamanhas que nossa disposição para acolher o próximo não costuma ir além de certos limites que costumam ser bem curtos. Mas tais limites podem ser ampliados, caso o façamos a partir do que em nós é vocacional. Mais ampliados ainda, claro, se além disso nos tornamos receptivos à Graça, cuja força nos é transmitida pelos sacramentos uma vez que estes nos fazem mergulhar no templo vivo e eterno da Eucaristia.

A amplitude deste amor pelo próximo pode assumir proporções enormes, históricas, conforme se dê o aperfeiçoamento de nossa vocação pela Graça de Deus.

Este acontecimento como que se manifestou às minhas vistas com grande força ao ler as palavras do papa Bento XVI, sobre o que ele percebe ser o sentido de sua vida pessoal. Ele diz

“Depois de séculos de contraposição [da leitura judaica e cristã da Bíblia], reconhecemos como nossa tarefa fazer com que esses dois modos de nova leitura dos escritos bíblicos – a cristã e a judaica – dialoguem entre si, para se compreender retamente a vontade e a Palavra de Deus.” (Jesus de Nazaré, Da entrada em Jerusalém até a Ressurreição, p. 43).


Aí me pareceu ver a presença de uma vocação filosófica amplificada pela Graça, talvez nisto estando a razão de Deus tê-lo escolhido para colocá-lo na posição que é o topo do múnus sacerdotal, como o Vigário de Cristo na terra. E a assumpção de um dever deste porte só pode ter duas origens: a soberba, em cujo caso o esforço fracassa; ou o amor ao próximo, tal como ensinado na mencionada parábola, o qual o Papa subscreve, claro.

Joel Nunes dos Santos, em 11 de fevereiro de 2012.
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