A Vocação Filosófica na Igreja

domingo, 22 de janeiro de 2012

Faz algum tempo o Pe. José Henrique proferiu homilia em que esclarecia sobre alguns mistérios da Igreja, dentre os quais o da vocação dos santos. Explicou (não com essas palavras) que há um caráter prospectivo nas vocações dos santos, isto é, essas são dadas por Deus para a solução de problemas cujas características estão ainda fora do imaginário presente das pessoas.

Fazendo uma comparação, digamos que o problema a envolver futuramente a vida de todos (ou da maioria das pessoas) seja um matagal. Quando as pessoas se virem dentro dele dificilmente saberão o que fazer. É aí então que as características da vocação daquele santo surgido anos antes funcionarão como solução. Do mesmo modo que nós, pessoas comuns, olhamos para um matagal e só enxergamos nele condições inapropriadas para lá viver, um arquiteto ao olhar para o mesmo ambiente enxerga uma cidade inteira já prontinha, com ruas, passarelas, supermercados, casas e tudo quanto possa significar lugar bom para morar. Assim também com a vocação dos santos: elas já manifestam, antecipadamente, a solução para dificuldades não somente presentes mas também de outras de que só teremos notícias impactantes no futuro.

A vocação dos santos é semelhante, portanto, à força presente na arquitetura: esta é como uma competência futura aplicada no presente. As características da vocação do santo são uma espécie de “solução arquitetônica” de problemas que a maioria das pessoas só consegue notar tardiamente.

Entendo que os dois últimos Papas – o Beato Papa João Paulo II e o Papa Bento XVI – são excelentes ilustrações contemporâneas desta prospectividade, da solução já antecipada para dificuldades só enxergadas pela maioria muito tempo depois de já terem envolvido a vida de todos.

A idéia que tenho em mente transmitir exige texto muito longo. Para não cansar o leitor, vou fazer assim: deixo aqui escrita a parte inicial do argumento e nas próximas semanas apresento sua continuação e o final. Assim ficará resolvida a incompletude do texto presente. Contando com sua compreensão, prossigo dizendo o que se lê a seguir.


O problema que hoje a maioria dos católicos detecta – desde o mais humilde ao mais letrado – é a paganização do mundo. Hoje em dia existe, numa escala mundial, uma rejeição de Deus e Suas Leis não por simples e desculpável ignorância, mas por opção. As sociedades atuais vão formando a mente e coração das novas gerações de maneira que desenvolvam raiva contra a Igreja. Nos livros dos cientistas que foram adquirindo prestígio após a Segunda Guerra Mundial, lêem-se palavras contra a religião – porém, quando examinadas tais palavras, nota-se que não se posicionam contra todas as religiões, mas contra uma em particular, exatamente aquela criada por Jesus, isto é, aquela que a Igreja ensina. Porque não é raro que tais cientistas, inclusive, proponham algum tipo de religião por eles inventada, como fez Albert Einstein.

Para terem êxito no empreendimento de indisporem as novas gerações contra a Igreja, uniram-se numa só voz saduceus de prestígio, Freud, Marx, Newton e outros, este último sendo talvez o principal deles. Por quê? Porque convenceu a muitos – e parece não haver mais geração fora deste convencimento – que o conhecimento do real não é possível através da Filosofia e seus métodos, mas somente através da ciência que ele inventou, que afirma a verdade somente daquilo que pode ser experimentado; portanto, do que pode ser visto, calculado, medido. Claro que ele não aplicou às próprias “verdades” que propôs o mesmo critério. Por exemplo, ele nunca explicou como ele próprio não somente acreditou (e propôs que o mundo inteiro acreditasse) no princípio a que deu o nome de “força da gravidade”. Esta “força” nunca foi vista por ninguém (nem por ele próprio), mas, sim, deduzida do movimento dos corpos. Ele ainda, por escrito, admitiu diversas vezes que “não possuía nenhuma hipótese a formular sobre qual seria a causa da força da gravidade e que a Física deveria, [não obstante esse fato] partir da hipótese desta força como de um princípio.” (Esta formulação é do prof. e teólogo Antonio Donato).

Eis aí o ardil do saduceu: propôs que só se acreditasse no que se pode experimentar e ver; portanto, que se rejeite a Filosofia e em seguida a Teologia, uma vez que aquela é o exame da verdade da Lei Natural (que era suficiente para o homem antes da queda) e esta da explicação da Revelação, que por misericórdia Deus ofereceu (e oferece) ao homem porque ele caiu. Tendo dito isso com veemência, procedeu como um filósofo: observou o movimento dos corpos e esforçou-se por deduzir algum princípio por trás deles. Fez cálculos matemáticos com os quais conseguiu predizer o posicionamento dos corpos no espaço, cálculos que falharam quando foram aplicados a corpos muito pequenos. Mas não conseguiu – ninguém conseguiu – explicar exatamente por que exatamente os corpos se movimentam. Dizer que o fazem por causa da “lei da gravidade” não é explicar, mas somente dar nome ao fenômeno. Propôs que se acreditasse em algo oculto, misterioso, cujas razões internas são ignoradas não somente por ele mas por todos, a que deu o nome de “força de gravidade”. Ao mesmo tempo que cuidou para que um número cada vez maior de pessoas descresse do misterioso porém não oculto fato histórico da encarnação de Deus, crida pelos simples e compreendida pelos que fornecem à ação da Graça o suporte da Filosofia.

Desfazer o engano deste e dos demais saduceus modernos é tarefa somente possível aos que, dotados de vocação filosófica, forneçam-lhe o aporte cultural adequado.

É aí que entra em cena o caráter prospectivo das santidades suscitadas por Deus na Igreja. Penso no beato Papa João Paulo II e no Papa Bento XVI. Para se ter um pouco da medida da força da vocação filosófica daquele, dentre outras produções de seu punho, vale o seu “Teologia do Corpo” (que pode ser baixado no endereço http://leandrocoutocn.wordpress.com/2010/10/08/872/), com a qual preparou jovens para atuarem na Igreja em assuntos relativos à castidade. Para ter a medida da força do trabalho deste último, o atual Papa Bento XVI, tenho em mente o seu livro “Jesus de Nazaré, da entrada em Jerusalém até a Ressurreição”. Embora este livro seja continuação do primeiro “Jesus de Nazaré”, creio ser possível lê-lo com proveito mesmo que não se tenha lido o anterior. O primeiro desses livros é um diálogo com um autor judeu (não saduceu) a respeito de quem é Jesus. O segundo, o qual recomendo leitura, visa mostrar a realeza terrestre e celeste de Jesus, esclarecer porque a cruz é a sua glorificação, e responder, enfim, à pergunta “Quem é Jesus?”.

Vários teólogos, indiscutivelmente competentes, vieram se dedicando a responder a esta mesma pergunta. Porém, o resultado a que chegaram foi se verem dentro do próprio buraco que cavaram e do qual não conseguiram sair. Esta situação, a meu ver, criou a ambientação psicológico-cultural requerida para que as falsas religiões propostas pelos saduceus acima mencionados adquirissem força e conquistasse o coração das novas gerações. Tanto essas falsas religiões conquistaram os corações das atuais gerações que elas tomam como coisas normais a recusa por parte de homens e mulheres em prosseguirem a família de onde procedem, optando pelo sexo desvinculado da procriação (rejeição que está na raiz dos chamados “casamentos” gays); o amor desmedido e principal pelos animais, em particular pelo cão, amor este que convive perfeitamente com a aprovação ao aborto; o uso da denominação “santuário ecológico” para locais onde não somente o homem não passou e muito menos algum santo por lá pernoitou; o uso da denominação “adoção” aplicada a cães, quando antes só se aplicava a seres humanos; e assim por diante.

Para retirar o homem desta enorme confusão em que se encontra, Deus em sua infinita Providência suscitou vocações capazes de criarem um “start” eficiente para a solução do problema. Esse “start” são as vocações do beato João Paulo II e do atual Papa Bento XVI, do que pretendo tratar no(s) artigo(s) seguinte(s).

Joel Nunes dos Santos, em 21 de janeiro de 2012.
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